Assédio sexual, analfabetismo e tradições são barreiras para as mulheres policiais
Assédio sexual, analfabetismo e tradições são barreiras para as mulheres policiais
Policiais mulheres foram banidas no Afeganistão durante o governo do Talebã. Hoje, mais de dez anos depois, é improvável que o governo do país atinja suas próprias metas para o aumento no número de mulheres na polícia.
Segundo um relatório da ONG britânica Oxfam, a meta para o recrutamento de 5 mil policiais femininas até o final do ano que vem parece cada vez menos realista e “não deve ser alcançada”.
Menos de 1.600 mulheres trabalham como policiais no país hoje e cerca de 200 estão em treinamento. Ainda assim, as mulheres compõem apenas 1% da força policial.
A Grã-Bretanha contribui com cerca de US$ 12,5 milhões (R$ 28,6 milhões) para os salários da polícia e considera que a presença de mais policiais femininas nas ruas do Afeganistão tem um papel importante em assegurar o cumprimento à lei.
Mas existe vontade política por parte do governo afegão? Muitos obstáculos dificultam o recrutamento de mulheres para a polícia feminina no país. Em 2005, apenas 180 de mais de 53 mil policiais eram mulheres. Agora, esse número aumentou oito vezes.
Desigualdade
Imagem: Reprodução (BBCBrasil)Entre as barreiras estão tradições culturais arraigadas, os altos índices de analfabetismo feminino e a ameaça de assédio sexual.
A BBC falou com uma adolescente que foi estuprada por um policial após ter fugido de casa. Ela conseguiu justiça. Após a intervenção de entidades internacionais, o policial foi levado até seu chefe e finalmente aprisionado.
Ainda assim, há fortes evidências de que dentro da própria policia, comportamentos sexuais predatórios são comuns.
Embora o general Ayub Salangi, ex-chefe da polícia de Cabul, diga que “rejeita totalmente alegações de abuso sexual dentro da força policial”, a comissão afegã de direitos humanos diz que muitos crimes sexuais são cometidos pela própria polícia.
A força do general Salangi, em Cabul, tem sido mais progressista do que a maioria das polícias de outras cidades, mas ainda há desigualdade.
Segundo a Oxfam, policiais femininas com frequência sofrem com a falta de uniformes básicos – que os colegas homens recebem -, vestiários e privacidade. Além disso, alguns chefes de polícia “relutam” em aceitar recrutas mulheres.
Excluídas


Saraj diz que participar de operações noturnas é mal visto pela sociedade: “Eu me sinto mal quando as pessoas pensam de forma negativa sobre mim”
Parigul Saraj é uma exceção. Ela era esteticista, mas hoje trabalha em postos de controle de veículos – um dos trabalhos mais perigosos para os policiais por causa dos riscos de ataques suicidas.
Seu trabalho é revistar carros e mulheres, já que um tabu cultural impede que homens façam esse trabalho quando há mulheres presentes.
Mas ela diz que tem sido isolada por membros de sua família e vizinhos. O próprio fato de que às vezes ela é chamada para participar de operações policiais no meio da noite é mal visto. ”Eu me sinto mal quando as pessoas pensam de forma negativa a meu respeito”, ela admite, na privacidade de sua casa.
Para uma mulher, sair de casa no meio da noite é evidência suficiente para que ela seja acusada de prostituição.
Com a proximidade das eleições, no ano que vem, existe pressão para que mais policiais femininas sejam recrutadas. E para que recebam tarefas importantes, “não apenas servir o chá” – como disse um representante da Oxfam.
Mas muitos temem que, uma vez que os holofotes sobre o Afeganistão sejam desligados – com a retirada das tropas estrangeiras no ano que vem – o ímpeto em direção a uma maior igualdade se perca.
Verdade Gospel.
Fonte: BBC Brasil